
comfortably numb
o início do ano chega sempre com um certo ruído. expectativas, resoluções, listas invisíveis do que já devia estar a acontecer. e eu, estou aqui. num modo de urso. não a dormir, mas também não pronta para sair da caverna.
este estado de comfortably numb (obrigada, pink floyd) não é fuga — é auto-regulação. um tempo de pausa consciente, onde o organismo abranda para poder integrar.
comfortably numb, como um amortecedor suave entre o que fui e o que ainda estou a tornar-me.
um lugar onde posso ficar quieta sem culpa. onde posso não produzir, não decidir, não avançar — e, ainda assim, praticar estar confortável aqui. sem me julgar. sem me apressar. sem me sentir em falha por não estar a fazer.
confortável até com o falhar. com os sonhos que se desfiguraram, que se misturaram com o vento duro da realidade diária. com aquilo que não correu como imaginado. com o que morreu para dar lugar a outra coisa — mesmo que eu ainda não saiba o quê.
este é um tempo de limpezas. tempo de abrir gavetas internas que ficaram fechadas durante meses. de tocar com cuidado no que ainda mora em mim e já pertence ao passado. de fazer, como dizia uma cliente minha, no outro dia, um declutter interno — não para deitar fora tudo, mas para perceber o que ainda precisa ser sentido, nomeado, chorado, respirado.
estar no silêncio — mesmo quando à volta tudo é barulho.
permitir que surja o encontro: eu, comigo.
na Gestalt, confiamos na autorregulação organísmica. o urso sai da caverna quando é tempo — não quando o calendário manda.
por agora, fico. a sentir. a respirar. sem forçar nada. a ouvir-me e respeitar o meu acordar devagar.
a criar espaço dentro de mim para o que vem a seguir. isso também é movimento.